Ayus [Inacabado][Interrompido]

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CAP. 1

Todos estavam entretidos com a linda paisagem das montanhas do Himalaia, montanhas cobertas de neve, onde pequenas flores tentavam encontrar o mínimo de sol possível. Várias outras colinas os cercavam, formando uma pequena “clareira”, além da neve, havia uma pequena caverna, escura e com marcas de garras na superfície de gelo que a cercava. O dia estava claro, apesar de haver grandes nuvens vindo do leste, nenhum tipo de problema poderia acontecer.
- Eu mencionei que seria um ótimo dia de caminhada.
- É, pena que ninguém aqui queria vir.
- Arion, não fale assim com seu pai.
- Só estou dizendo a verdade.
- Deixe Haudria, adolescentes são todos iguais, o inferno na terra. – Kóruk sempre tentava ensinar seus filhos todo o conhecimento que possuía, mas sempre parecia uma tarefa cada vez mais impossível.
- O pai!
- Fale Áyus.
- Eu aprendi na escola, que aquele tipo de nuvem, as Cumulo-Nimbos, são nuvens de tempestades, não é melhor nós voltarmos?
- Não Áyus, está tudo... – Sua frase foi interrompida devido ao susto que tomara. Um forte vento começou a sobrar sobre eles, e a neve começou a cair. – Bem, estamos muito longe para voltar, se nada saiu daquela caverna ainda, não há de ter nada. Vamos para lá. - Assim como presumira, nada havia na caverna, apenas gelo onde se encostar.
Dois dias se passaram e a tempestade apenas se intensificou. A temperatura baixara consideravelmente e o suprimento de comida havia acabado. No terceiro dia a situação complicou; Kóruk acabara por adoecer devido à falta de alimento e condições de higiene, além de sua idade mais avançada e Haudria estava fraca por não ter dormido durante as noites, vigiando a caverna.
As horas pareciam intermináveis, parecia que todos morreriam ali, atirados no meio do gelo. As esperanças da família estavam acabando, porém, durante o quarto dia, a nevasca cessou, possibilitando uma caminhada.
- Arion e Áyus, agora que a nevasca parou, por favor, vão buscar ajuda, tragam socorro. Eu ficarei aqui com Kóruk. – Haudria não conseguia esconder o medo em sua voz. Sabia que ela e Kóruk não sobreviveriam, e nesta hora, desejava estar ao lado dele.
- Mas mãe...
- Tu escutaste a mamãe, vamos embora, agora. – Arion mirava Áyus, não podia mostrar medo para o irmão mais novo, apesar de sentir. Ele arrumou uma pequena mochila e caminhou até a entrada da caverna. – Eu vou voltar mãe.
- Que Necksa os proteja.
Os dois irmãos caminharam durante várias horas, cansados pela falta de comida e desidratados pela falta de água, pararam por um momento na base de uma montanha para tentar descansar. Os dois estavam ofegantes, como se não conseguissem mais caminhar.
- Mano, o que são aquelas sombras?
Três silhuetas se mexiam mais a frente, animais quadrúpedes, andando silenciosamente e devagar. Arion ficou parado, chocado com o que via, não possuía armas para se defender e a vida do irmão era mais importante. “Áyus, não se meche!”, foram as únicas palavras que conseguiu cochichar para o irmão. As três sombras mais a frente tomaram forma, três lobos se aproximavam.
Arion, pelo desespero de cogitar a possibilidade de ter sua família inteira, praticamente, destruída pelos animais, ficou de pé, despertando a curiosidade dos lobos. A alcatéia parou e ficou olhando para os dois irmãos, um dos lobos caminhou a frente dos outros e uivou. Os três começaram a correr rumo aos irmãos, mas Arion tinha de proteger o menor, mesmo que custasse sua vida.
Ele empurrou Áyus para trás e correu contra os lobos, chutando aquele que uivara. Áyus ficou encolhido no chão, apavorado, não sabia o que fazer, não queria perder sua família e ter de viver sozinho, com o remorso de poder ter impedido tamanha brutalidade da natureza. Porém, quando olhou por cima dos ombros, viu algo que não desejara ter visto.
Um dos lobos pulou sobre outro e mordeu o braço de Arion, já que tentara proteger seu rosto. Enquanto ele se curvava de dor, outro lobo pulou em suas costas, rasgando-a com suas unhas afiadas. Ele não agüentou tamanha dor e caiu no chão, agonizando, os lobos, sem mais demoras, começaram a arrancar pedaços de sua carne, principalmente as partes mais macias, sem se importar com a dor dele. Arion não conseguia gritar, não conseguia se mexer, a dor o paralisara, a única coisa que via era seu irmão, olhando a cena, horrorizado.
Arion levantou a mão para o irmão, tentando dizer para ele fugir, mas não conseguiu. Uma forte onda de dor atravessou seu corpo e tudo escureceu, fazendo sua mão cair contra a neve, desfalecida.
Áyus, que continuava paralisado devido ao medo, continuou no chão, vendo o corpo de seu irmão ser levado para as sombras. O frio e o medo tomavam conta de seu corpo, não sabia o caminho de volta a seus pais, não sabia o que fazer para se salvar, não sabia o que pensar.
Ele deitou na neve e fechou os olhos, esperando sua vez, afinal, toda sua família já deveria ter deixado este mundo. Ficou parado durante um tempo, até sentir duas grandes mãos o segurando, com medo, não abriu seus olhos, achando que seria o próximo a morrer. Pequenos grunhidos podiam ser escutados, provavelmente vindo daqueles que o seguravam, uma língua diferente. Áyus se comprimiu contra o corpo, que, agora, o levava como um bebê. Seu corpo foi tomado por um calor diferente, e em seguida adormeceu, sem saber quem eram e como eram.


CAP 2

- Onde vocês encontraram este saco de carne? Vocês sabem que não podemos nos revelar para esta criatura inferior. Adrik, Shura, Akim, por que o trouxeram?
- Rei Mesi, pedimos desculpas, mas esta criança estava largada, perdida no meio da neve. Revistamos o perímetro e encontramos dois mortos dentro de uma caverna, presumimos serem seus pais e, além dos dois, encontramos um corpo, dilacerado por lobos-da-neve, provavelmente seu irmão...
- Não quero saber Shura, ele não é bem vindo no nosso reino, esqueça-o, mate-o, se a família toda já está morta, não há com o que se preocupar.
- Por favor Mesi, seja compreensivo conosco, bote-se no lugar da criança.
- Adrik, cale-se! Se o deixarem vivo, eu mesmo o mato.
- E se o treinarmos? –Os quatro olhos se viraram para Shura, era uma hipótese estranha, algo que o clã nunca pensou em fazer. -Podemos ensinar tudo para ele, e, caso se revolte, o matamos. Óbvio que não serei burra de passar todo o conhecimento, fazendo disso, um meio de escape.
- Interessante, mas quais são as probabilidades desta coisa ter dons mágicos?
- Compreendemos seu medo Mesi, mas se achas que ele não tem capacidade de desenvolver a magia, o que há para temer? Mesmo que ele consiga, levará anos para aperfeiçoar as técnicas, anos para dominar a magia completamente.
- Já matei muitos humanos que conseguiram chegar até aqui, Adrik. Já confiei em muitos...
- Mas nenhum deles era uma criança senhor.
- Tudo bem, vocês três serão os mentores desta criança, dêem comida e ensinem o que for necessário, mas não dêem falsas esperanças a esta criança, e, principalmente, saibam que o clã não vai gostar da presença dele. Dêem apoio moral, sempre que ele se sentir perdido. Dispensados.
Os três guerreiros se viraram e saíram rumo à porta, carregando o pequeno Áyus com mãos azuladas, provindas da magia de Adrik. Ao cruzarem a porta, muitos dos outros guerreiros e servos olharam com nojo para o grupo, já que o mesmo carregava uma criança humana, uma criança imprestável, que só trazia desgraça ao mundo. Muito caminharam até, finalmente, chegarem ao quarto destinado à criança, pequeno, entretanto, confortável.
- Adrik, ponha a criança na cama.
- Sim, Shura, não se preocupe. – As mãos, grandes e azuladas, colocaram Áyus na cama, e a transpassaram como se não existe. – Ah, Akim, tente não quebrar nada aqui.
- Para com isso, não sou tão atrapalhado... – Akim virou-se rapidamente para Adrik, pois contemplava a paisagem das montanhas pela janela. E, ao virar, derrubou um dos vasos de decoração do quarto. – Tudo bem, eu conserto. – Encabulado, ergueu uma das mãos e uma pequena esfera verde contornou sua mão, fazendo o vaso se reconstruir.
- Não sei por que eu ainda aviso. Acordo ele agora ou deixo ele assim?
- Acorda agora, pode deixar que eu explicarei tudo.
- Mas não vai mesmo Akim, nos três explicaremos e não esconderemos nada, tudo bem?
- Está bem Shura, vai Adrik, acorda logo essa coisa.
Ele olhou para a criança e, simplesmente, estalou os dedos, fazendo com que Áyus se espreguiçasse. Ele esfregou seus olhos, estava com sono, não sabia se tinha sonhado ou não. Percebeu que havia mais pessoas no recinto, pessoas que ele, talvez, não conhecesse, mas quando conseguiu focar os rostos de quem o acompanhavam, começou a gritar.
- Posso usar magia pra fechar a boca dele?
- Não Akim, não pode.
- Por favor, Shura, deixa!?
- Não.
- Tudo bem, então esperaremos esta coisa parar de gritar.
Durante cinco minutos os três permaneceram imóveis, apenas escutando os gritos emitidos por Áyus. Agudos por ser uma criança, e com medo por não saber onde estava.
- Q-quem são v-vocês?
- Somos criaturas mágicas, mitológicas para vocês, algo que vocês não conseguem comprovar. Somos dotados de magia, somos guerreiros, caçadores, e não temos piedade da raça inferior, da qual você pertence.
- Shura! – Gritou Adrik. – Você e Akim saiam, deixem-me a só com ele.
- O que! Mas eu sou mulher, sou mais compreensiva, posso tentar falar como uma mãe fala com o filho.
- Shura, você é uma guerreira, está mais para machinho. Eu tenho que ficar, sou mais atencioso e amigável do que vocês.
- É Akim, mas é um abobado, totalmente distraído e perigoso devido à babaquice.
- Saiam agora! - Gritou Adrik, novamente, como um último aviso.
Áyus apenas observava a briga dos três guerreiros, não sabia o que fazer, porém, mesmo sendo diferentes, não sentia mais medo deles, eram criaturas amigas. Akim e Shura saíram do quarto, fechando a porta e deixando Adrik sozinho com a criança.
- Desculpe pelo inconveniente, sabemos que você encontra-se abalado pelo ocorrido e confuso conosco.
- Quem são vocês? Cadê meus pais, meu irmão, onde eles estão? – Áyus não estava com medo dele, não se lembrava do ocorrido, achava que era um sonho, um pesadelo.
- Bem, já lhe respondo seus questionamentos, mas antes, qual é seu nome e sua idade?
- Áyus Frin, tenho onze anos.
-Áyus, nome bonito, significa vida. – Áyus sorria, meio envergonhado, mas gostou de saber o significado de seu nome. – Nós te trouxemos para o nosso reino e o apresentamos ao nosso rei, ele não queria você ficasse aqui, mas conseguimos isso, porém você terá de treinar conosco. Prometemos que não omitiríamos nada de você, desde que você precise saber, e seu primeiro questionamento é sobre sua família. Aconteceu algo extremamente duro para a sua raça...
- Eu sonhei que meus pais ficaram em uma caverna, e meu irmão foi... foi comido por animais. – Lágrimas começaram a brotar dos olhos do garoto, mesmo sonhado, era uma lembrança horrível.
- Me desculpe criança, mas o que você sonhou, não foi um sonho, realmente aconteceu. Seus pais, e seu irmão, não fazem mais parte desta dimensão, me desculpe.
O mundo de Áyus caiu, todo aquele sonho, realidade, nada fez para ajudar. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto com mais intensidade, soluços eram ouvidos. Adrik não podia fazer nada, sabia que era duro perder alguém da família, mas nesta idade, era uma crueldade da natureza. Ele chegou mais perto da criança e a abraçou, tentando acalmá-la.
- P-pode m-me d-deixar u-u-um pouco so-sozinho?
- Claro, sem problemas, qualquer coisa é só dizer o meu nome que eu apareço.
Adrik saiu pela porta, sem olhar para trás, deixando Áyus sozinho no quarto como pedira. Do lado de fora encontrou apenas Akim, que se distraia com um livro de magias. Adrik chegou mais perto e o tocou, retirando sua atenção do estudo.
- Ah, oi, como ele está?
- Mal, chorando bastante, coitado, perder toda família nesta idade não é fácil.
- Imagino, perder o nosso irmão já foi doloroso.
- Nem me lembre, onde está Shura?
- Foi pegar um pouco de alimento para ele. Eu preciso reforçar um encantamento no salão de entrada, se importa se eu for?
- Não, sem problemas, pode ir, esperarei Shura e depois conversarei mais com o garoto.

CAP 3

Sentado no canto da cama, abraçado em um travesseiro, chorando. Não havia mais o que fazer, toda sua família estava morta, qual seria o próximo passo? Áyus recordava na infância, dos momentos bons que tivera com seus pais antes da viagem. Moravam em Xangri-lá no Brasil, uma praia com poucos habitantes, seu irmão sempre dizia que era uma praia de velhos, não havia muitos amigos, fazendo com que os irmãos fossem uma dupla inseparável.
Arion era o irmão mais velho, possuía quinze anos e sempre foi muito super-protetor. Levava seu irmão em vários lugares e nunca sentiu vergonha das travessuras do mesmo. Um pouco distraído, sempre deixava escapar algum comentário indesejável, mas sempre atencioso, sempre consertava seu erro.
Ayus e Arion passavam muito tempo na beira do mar, vendo o sol nascer, conversando sobre o futuro e planejando viagens ao redor do mundo. Nenhum dos dois era bom no colégio, se esforçavam, mas ficavam na média, o que não impedia o maior de conseguir um emprego como vendedor, ajudando a sua família com as despesas, apesar de serem uma família rica.
Haudria era psicóloga e Kóruk biomédico. Ambos trabalhavam na própria cidade, mas juntaram uma grande quantidade de dinheiro antes de se mudarem. Trabalhavam na Itália, mas acabaram voltando para suas origens, por desejarem uma vida mais sossegada. Tiveram seus dois filhos em uma idade considerada avançada, mas não os impediu de darem todo afeto que eles mereciam.

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