-29º dia de outubro-
Penélope
Nove horas da manhã, o universo já estava em movimento, várias pessoas já encontravam-se no trabalho, muitas estavam nascendo, porém, algumas, morrendo. Penélope saiu de seu carro e se dirigiu à entrada do cemitério. Finalmente havia conseguido coragem para visitar o túmulo de seu filho, porém ainda se sentia mal pela perda. Três anos se passaram desde o acidente com seu filho, três anos desde o atropelamento, antes da grande tragédia. Ele era uma criança, possuía apenas onze anos, tinha uma vida para viver, mas isto, infelizmente, havia acabado.
- Oi Benjamim, como você está?
- Oi Penélope, há quanto tempo. Eu estou bem, continuo aqui na entrada, olhando os visitantes e vendendo flores,
- Faz um tempo sim. Ainda não superei esta perda.- Ela levou o dedo ao olho, como estivesse chorando.
- Mas já fazem três anos dona. Já deveria ter superado.
- Eu sei, mas é difícil.
- Bem, vamos parar de falar sobre isso. Vai querer alguma flor?
- Não Ben, obrigada. o Thiago nunca gostou de flores.
- Tudo bem. Boa visita.
- Obrigada.
Penélope entrou no cemitério, sem olhar para trás, não queria voltar, ela tinha de resolver isso.
Benjamim
A mulher se afastou, desaparecendo em meio as árvores que cercavam a entrada, tirando a visão de qualquer curioso do lado de fora. Benjamim começou a regar as plantas, a organizar as prateleiras e arquivos, fazia um tempo que trabalhava lá, mas nunca trocaria este emprego.
- Nunca entendi certas pessoas, algumas nunca superam traumas. Sei que era uma criança de onze anos, um filho, mas já fazem três anos, ela não pode se martirizar para sempre. Vai acabar morrendo pelo alto nível de estresse.
Ben costumava pensar alto, ou como diriam algumas pessoas, falar sozinho. Nunca possuiu muita fé, mas sempre soube que quando Penélope entrasse no cemitério, uma grande mudança aconteceria.
Matheus
Ele estava ajoelhado em frente à uma lápide, nunca se perdoou pelo acidente, nunca teve medo de fugir. Três anos se passaram desde que fora preso, desde que matara aquela criança. Na lápide estava escrito: "Thiago Frin. "Infelizmente, apenas quando estamos perto da morte é que temos uma visão mais neutra da vida."1994- 2005".
- Nunca vou me perdoar pelo que fiz. Nunca vou conseguir esquecer o seu rosto, nem o que você me disse. Hoje trouxe esta pedra para você, acho que é uma turmalina. Sei que não gostas de flores, mas elas são tão cheirosas, tão macias, mas cada um com suas preferências não é mesmo?
Ele continuou conversando em tom baixo com algo que somente ele conseguia ver, talvez estivesse ficando louco, ou apenas tentando se acalmar.
Penélope
Ela voltou correndo para a entrada, estava ofegante, cansada e pálida.
- Ben, aquele homem sentado na lápide de meu filho. O que ele faz fora da cadeia. Por que não me contou?
- Calma Penélope, ele conseguiu regime semi-aberto, se comportou bem durante sua "estadia" na prisão. - Enquanto falava ele se dirigiu aos fundos do escritório e pegou um copo de água para ela.- Beba.
- Eu quero que ele suma daqui, eu vou chamar a policia.
- Não vai adiantar, eles não vão tirá-lo daqui.
- Como você sabe?
- Deixe eu continuar o que eu estava dizendo. Ele conseguiu regime semi-aberto e um emprego. Só sei lhe dizer que ele é um artista, não sei de qual ramo. Fazem três meses que ele saiu da cadeia, e nesses três meses, ele veio aqui quase todos os dias. Beba.
- Quase todos os dias?
- Sim, em alguns certos dias ele não vem. Seja pelo trabalho, ou por serem datas comemorativas da religião dele, ou feriados nacionais.
- Como você sabe de tudo isso?
- Ele me contou, às vezes ele para aqui e conversa comigo. É um rapaz querido, nunca trouxe problemas, sempre muito simpático. Ele se arrepende profundamente do que fez.
- É o que vamos ver.- Ela pegou sua bolsa e deu o primeiro passo para dentro do cemitério, indo ao encontro do assassino.
- Penélope, sejamos conscientes. Deixe ele lá, prove a si mesma que é forte para superar a perda. Ele não é tudo aquilo que você acha que é. É capaz daquele rapaz ser mais fraco que a senhora.
- Tudo bem. Vou fazer o que disse, mas voltarei amanhã. Que horas ele chega?
- No momento que abro o portão ele entra. Já teve dias que cheguei atrasado e o encontrei sentado aqui na frente. Sete e meia eu abro os portões.
- Obrigada Ben.
Ela estendeu o copo ainda cheio para Benjamim e seguiu para fora do cemitério. Havia deixado seu carro no estacionamento e estava atrasada para o trabalho.
Benjamim
- Sinto pena dessas duas almas. Finalmente se encontraram, só falta duas coisas, perdoar-se e ser perdoado.- Enquanto pensava alto novas pessoas foram se aproximando do escritório de entrada.- Bem, mais um dia de trabalho começa.
Matheus
- Você sabe que eu não possua uma religião, digamos, comum. Venho preparando um ritual há um mês, eu quero vê-lo, quero falar com você pessoalmente. Eu farei dia trinta e um, que é uma data realmente importante e propícia para este tipo de ritual...
Matheus sempre possuía assunto para conversar, era uma pessoa esperta, culta, mas frágil emocionalmente. Ele não usava relógios, mas sempre sabia a hora certa de ir embora, geralmente, quando a sombra da árvore atrás dele tocava a lápide.
- Tenho que ir embora, mais um dia de trabalho e mais uma noite tentando sobreviver. Até amanhã.
-30º dia de outubro-
Penélope
Sete é meia da manhã, Penélope estava encostada no portão, esperando que Benjamim o abrisse.
- Nossa dona, você chegou cedo em.
- Ele já chegou?
- Não o vi, deve ter se atrasado.
- Típico.
O portão rangia enquanto era empurrado, a fachada era simples, uma parede branca e um arco na entrada, logo em seguida, à esquerda, estava o escritório de Ben.
- Vou lá na lápide, ver se encontro algo. Até depois Ben.
Ele apenas acenou.
Matheus
- Sete e quarenta, estou atrasado.
Matheus caminhava com passos largos, como se sempre possuísse um compromisso ou algo urgente a fazer. Estava do outro lado da rua, em frente ao cemitério, apenas esperando a melhor hora para atravessar.
Assim que chegou no arco foi direto ao escritório falar com Benjamim, tirar algumas duvidas.
- Oi, até que horas vocês ficam abertos?
- Até as onze horas da noite caro rapaz.- Ben sorria para ele.- Mas me diga, estou ficando velho e cada vez mais curioso, fazem três meses que vem aqui e ainda não sabe a hora que fechamos?
- É que amanhã é meu dia de folga do trabalho, e tenho umas coisas para fazer, daí vou me atrasar um pouco, só queria confirmar.
- Tudo bem, não se preocupe com Thiago, ele vai te esperar, como faz todos os dias.
- Como você sabe que eu venho visitá-lo?
- Eu sei muita coisa Matheus.- "Até meu nome ele sabe, interessante" pensou Matheus.- Você tem uma visita, seja cauteloso.
- Tudo bem. Obrigado.
Ele caminhou rumo à lápide, mas com passos menores do que de costume. Ficou observando as árvores, olhando as centenas de lápides que estavam coladas na terra.
Ao chegar perto de seu destino, notou a presença de uma mulher, ajoelhada em frente a lápide de Thiago. Ela era familiar, cabelos pretos e lisos, pela clara, sempre com um óculos na cabeça e com um ar intelectual a sua volta. Era a mãe de Thiago, ele nunca iria esquecer.
Matheus foi para trás de uma árvore, a mesma árvore que o avisava quando era hora de ir embora. A mulher estava de costas para ele, e toda a vegetação que havia em volta da árvore o tapava, não era possível vê-lo. Penélope estava rezando, mas durou pouco. Logo que terminou sua oração ela começou a olhar em volta, como se procurasse algo.
- Ela não veio olhar o túmulo, ela está me procurando. Deve ter me visto ontem, ou algum dia que eu tenha vindo. - Matheus falou em voz baixa, para que somente ele ouvisse.
Ela desistiu de ficar lá ajoelhada, possuía mais coisas para fazer. Penélope se levantou e foi embora, rumo a entrada. Assim que ele a perdeu de vista, caminhou até a lápide e começou a conversar.
Penélope
- E então, conseguiu falar com ele?
- Não Ben, ele não apareceu lá, ele veio hoje?
- Veio sim, passou aqui tem uns dez minutos, talvez tenha se escondido de você, talvez tenha ficado com medo.
- Não sei se eu bateria nele.
- Você esta ficando com remorso. Você perdoaria ele?
- Ele matou meu filho Ben.
- Todos temos uma missão aqui. Mas só tomamos consciência dela depois que morremos. Quando vocês chegaram onde seu filho estava, ele já havia falecido, e quem disse que durante o trajeto Thiago não disse nada ao Matheus?
- Você está dizendo para eu voltar lá e falar com ele?
- Existe uma diferença em seguir as emoções e o coração. Olhe só, se você seguir as emoções, vai matar ele quando o vir. Porém, se seguir o coração, vai manter e calma e vai escutar o que ele tem a dizer.
- Não sei o que fazer.
- Já contou para o seu marido?
Um estalo percorreu o corpo de Penélope, não havia contado para seu marido o que havia acontecido. Ele, provavelmente, iria querer matar o Matheus, era arriscado, mas necessário.
- Ainda não.
- Então tire o dia de folga e converse com o seu marido, isto é importante para ele também. E me faça um favor.
- Qual?
- Volte amanhã de noite, terá uma surpresa.
- Tudo bem, mas vou falar com ele hoje.
- Não, você vai pra casa e vai falar com o seu marido. Mas, amanhã você vai vir sozinha ok?
- Muito estranho isso, mas confio no senhor.
- Até amanhã.
Matheus
- É, eu errei, achei que sua mãe iria voltar e falar comigo, perguntar sobre a minha vida na cadeia, mas acho que ela não virá. Sabe Thiago, as pessoas são estranhas, parece que tudo é calculado para dar errado, mas, no final, tudo dá certo. Confesso que sempre quis ser uma nuvem, ficar voando, olhando todos lá de cima, sem a menos preocupação. Sonho meio impossível de acontecer.
Um pequeno barulho de galho se quebrando chamou a atenção de Matheus, era Benjamim, se sentando ao lado dele, como se fossem grandes amigos.
- Sua vida está complicada em rapaz?
- Está, mas faço de tudo para não parecer.
- Vai fazer o ritual amanhã? No "dia das bruxas"?- A expressão de Matheus mudou ao escutar estas palavras. Como se fosse um pequeno alivio.
- Vou sim.- Ele sorria.- O único problema problema é que não tenho dinheiro para comprar uma vela.
- Sem problemas eu te consigo uma. Preta?
- E roxa.
- Tudo bem. Aproveita que amanhã vai estar chovendo.
- Mas a previsão é de sol, duvido que esteja chovendo.
- Sabe, a chuva afasta as pessoas daqui. Não duvide que esteja chovendo.
- Ah, claro, entendi. Boa sorte.
- Obrigado, tudo pela harmonia.- Benjamim se levantou, indo em direção ao seu escritório.
- Thiago, quando a sombra me avisa, tenho que ir. Amanhã nós nos vemos.
-31º dia de outubro-
Benjamim
O sol não apareceu durante a manhã, nem durante a tarde. O clima estava úmido, o céu estava nublado e uma leve brisa passava pela cemitério.
- É, eu consegui, não estou enferrujado, já é um avanço.
- Oi Ben, como você está? Cheguei cedo?
- Estou bem, e não, são dezessete horas, não chegou atrasada não. Como o seu marido reagiu?
- Eu contei toda a história. No começo ele queria vir até aqui e matar o Matheus, mas depois que contei tudo ele ficou mais calmo, não queria matar ninguém, nem quebrar nada.
- Temos um avanço.
- Significativo. Ele já está aí?
- Sim, está montando o ritual.
- O ri-ritual?- Ela gaguejava, estava com medo do que aconteceria aquela noite.
- Não precisa ficar com medo Penélope, confie em mim. Agora me diga, qual é a cor da morte?
- Preto é lógico.
- Resposta errada, é o vermelho. Outra pergunta, você acredita em algum Deus?
- Não, acho uma besteira isso.
- Bem, prepare-se para acreditar, me acompanhe, vamos até a outra sala.
Antes de irem Benjamim fechou o portão, ninguém iria no cemitério em um dia de chuva, então não teria problema. Logo que fechou toda a parte da frente, os dois foram até uma pequena casa onde ficavam os equipamentos usados para abrir as covas. Não era muito confortável, mas tinha uma boa vista para a lápide Thiago.
- O que ele está fazendo com aquelas velas?
- Preste atenção, elas representam: proteção, representação, adivinhação e manifestação.
- Mas por que isso?
- Teste de cultura, que dia é hoje?
- Dia trinta e um de outubro, popular dia das bruxas.
- Pois é, para os celtas hoje é o dia dos mortos, o dia em que todas as almas andam livre pelo nosso mundo. E hoje é possível falar com elas, mais que nas outras datas.
- Isso não existe.
- Você verá.
Em frente a lápide, Matheus preparava os ingredientes e o ritual. Havia pergaminhos, athames, plantas e uma caixa com fósforos. Ele iria fazer e nada o impediria.
- Ben, você acha que vai chover? Digo, as velas não ficaram acesas por muito tempo.
- Eu sei, e ele também sabe.
Matheus olhou para o alto, relâmpagos passavam pelo céu e trovões ecoavam pelo ar.
- Aquele velho conseguiu. Algum dia também conseguirei fazer o que ele fez.
Enquanto falava ele retirou de uma mochila uma pequena faca cheia de símbolos. Ele se levantou e começou a desenhar símbolos invisíveis no ar. Desenhou na direção do norte, sul, leste, oeste, em cima de sua cabeça e na terra. Logo em seguida tocou o solo e pronunciou algumas palavras inaudíveis.
- O que ele está fazendo, Ben?
- Se protegendo. Repare, ele está desenhando símbolos nas quatro direções. Quando ele fizer o desenho no chão, olhe para a grama iluminada pela chama da vela. Note que não há vento.- Eles esperaram até que Matheus fizesse o ultimo símbolo no chão é o tocasse.- O que aconteceu?
- A grama se moveu, mas como é possível, não há vento, não tem como ela se mexer.
Assim que ela terminou sua frase começou a choveu. Não era uma chuva fina, mas também não era grossa. Era uma chuva de inverno e não iria parar tão cedo.
- Repare na chama da vela, nenhuma gota d'água toca ela. Ela nunca irá apagar com o vento ou com a água, graças ao Matheus. Ele é um mago, ele consegue mudar algumas coisas do mundo real, é realmente uma dádiva.
- Então ele pode trazer o meu filho de volta?
- Infelizmente não. Se lembra que eu disse que hoje era o dia que as almas andam livremente?
- Sim.
- Hoje você verá o seu filho.
Os olhos dela perderam um pouco de sua cor, era impossível ela estar vivendo aquilo, nunca acreditou em Deus, nunca acreditou em nada relacionado a magia ou a fé. Mas ela estava vendo, era real, não havia como negar.
- Eu posso ir lá agora?
- Não, ele precisa terminar tudo, sem errar nada. Fique aqui comigo, ele sabe que você está aqui e sabe que você vai ir lá.
- Como?
- Do mesmo jeito que eu sei que você está grávida. Sentindo as vibrações do ar.
- Eu estou grávida?- seus olhos se arregalaram, ela não sabia, nunca imaginou ter outro filho.
- Deixe isso para outra hora, olhe o que ele vai fazer.
Matheus retirou de sua mochila uma pequena rosa, ainda com a cor viva. Colocou em cima da lápide e cantou alguns versos. Durante suas palavras, vários raios cruzaram o céu, como se acompanhassem uma melodia que não existia.
- Ben, explica.
- Aquela rosa significa a vida. Significa o tempo da conversa. Quando a rosa desaparecer, a conversa entre o vocês e o espírito acaba.
- Mas por que tem de ter esta limitação?
- Você quer ficar perdida no tempo e voltar para o mundo real daqui uns trezentos anos?
Ele parou de cantar os versos e os raios pararam de aparecer. Estava feito. O ritual havia acabado, mas ele não podia seguir adiante sem uma companhia. Ele apenas ergueu a mão para o alto, despreocupado com o resto do mundo.
- Ele está te chamando Penélope.
- Tudo bem. - Suspirou fundo antes de dar o primeiro passo.
Penélope percorreu o caminho, até onde Matheus estava, com medo em seu coração e em sua mente. Ela não sabia o que estava fazendo lá, mas sabia que era aquilo que devia ser feito. Sabia que algumas coisas não podem ser planejadas, muito menos calculadas, eram simplesmente entregue à sorte.
Assim que chegou perto de Matheus, ele a olhou e abaixou a cabeça. Ele se sentia rebaixado, sentia culpa ao lado dela. Mas não foi o acaso que juntou os dois naquela noite.
- Ben me contou tudo.
- Não podemos esperar, é só se ajoelhar em frente a lápide.- Ele não olhou nenhuma vez nos olhos dela enquanto falava, apenas encarou o chão, como se cuidasse para não ser engolido.
- Tudo bem.
Antes de se mexer se lembrou do círculo que ele havia feito em volta da lápide, para evitar a chama de apagar. Caminhou até ela, e assim que cruzou aquele círculo sentiu um calor agradável, e viu que suas roupas não estavam mais molhadas. Olhou para trás e viu Matheus entrando e se ajoelhando ao lado dela. E la se ajoelhou e olhou para ele.
- Como isso é possível?
- Basta acreditar.
Ela olhou para a lápide e se lembrou da rosa. No momento que olhou para a suas pétalas ela começou a se desfazer, como se alguém estivesse soprando uma rosa de areia, lentamente, mas era notável.
-Thiago-
Tudo na volta deles mudou. O chão e o céu brilhavam em uma mistura de azul, verde e roxo, as únicas coisas que permaneciam no lugar eram a lápide a rosa, que ainda era destruída por algo invisível.
- Onde nós estamos?
- Em outra dimensão. Estamos no véu entre o mundo dos espíritos e o mundo dos humanos. Por isso esta cor.- Novamente ele não olhava para ela.
- Achei que vocês não iriam vir. Já estava me preparando para ir à Terra ver vocês.
- Quem disse isso?
- Não me reconhece mais mãe?
Penélope virou para trás e viu seu filho, seu olhos se encheram de lágrimas e seu coração começou a pulsar. Ela levantou e abraçou seu filho, sentiu o calor de seu corpo, seus as lágrimas escorrendo pelas suas bochechas.
- Duas perguntas, como você cresceu? E como eu posso te tocar?
- Penélope, os espíritos crescem também, eles amadurecem e depois voltam. Você pode tocar nele, pois também é um espírito por enquanto. Você não está no seu corpo.
- Depois de três anos eu finalmente te vejo em Matheus.- Ele correu e abraçou Matheus, foi um abraço apertado e longo, como se nenhum acidente houvesse ocorrido.- Obrigado por esses três meses de visita. Foi bom conversar com você.
- Eu continuarei vindo aqui, gosto de conversar com você.
- Ai meu filho...
- Tá mãe, tá, nunca muda. O que trazem vocês aqui mesmo?
- Eu só posso estar sonhando. Isso não pode ser real.
- Sabe mãe, às vezes passamos por experiências mágica e achamos que foi fruto da nossa mente.
- Eu sei que você já me perdoou, mas eu queria te ver, sei que você me visitava lá na prisão, sabe o que passei, sinto sua falta, só queria te ver novamente.
- Já contou pra ela o que eu lhe disse antes de morrer?
- Nunca me deram chance.
- Como assim já perdoou? Visitava? O que você disse? - Tudo era muito novo para Penélope, muitas perguntas a serem feitas.
- Mãe, eu morri com onze anos, hoje tenho catorze, eu morri muito novo, e graças a isso tenho o direito de ir e vir pelos mundos dos espíritos e do humanos. Sempre te visitei a noite, mas durante o dia ficava com ele. Ele realmente precisava mais de mim do que você. E quanto ao que eu disse, antes de vocês chegarem, eu sabia que não ia vê-los, eu disse para ele que o perdoava pelo acidente, o perdoei de tudo que aconteceu.
- Além de me dizer qual era a sua missão.
- Ben comentou algo sobre isso, que só depois que morremos sabemos qual é.
- Isso mesmo mãe, e a minha missão era juntar vocês, digo, juntar as familias. Fazer vocês pensarem na espiritualidade, mas também fazer o Matheus passar por algumas experiências ruins para aprender e se tornar mais sábio. Querendo vocês ou não, os dois, ou melhor, os três, com o papai, formam um círculo, uma familia. Quando vocês morrerem também vão saber as suas.
- Isso é tão bonito. Mas filho, por que você não voltou para a Terra.
- Não posso, ainda. Você está grávida, terá outra vida para cuidar. Então, só no futuro eu voltarei.
- Desculpa atrapalhar vocês dois, mas nosso tempo está acabando. Falta só um minuto para a rosa ser destruída. Precisamos voltar. Foi bom te ver Thiago. Não te preocupe, continuarei vindo.
- Não precisa se preocupar tanto. Você tem um emprego bacana, o único problema, agora, são as noites.
- Não adianta dizer não, eu vou continuar vindo e pode deixar que eu me cuido nas noite. Agora vamos.- Matheus abraçou Thiago e se ajoelhou.
- Vou sentir saudades filho.
- Não te preocupa mãe, eu te visito quase todos os dias. Agora vão, até outro dia.
Ela abraçou Thiago e deu um beijo em sua bochecha. Ela não queria ir, mas era necessário, era hora de ir. Ela se ajoelhou, ainda relutante, ficou olhando para Thiago por um tempo, mas foi obrigada a fechar os olhos.
-1º dia de novembro-
A forte luz que obrigou Penélope a fechar os olhos havia se dissipado. Ambos estavam ajoelhados em frente à lápide, no meio da escuridão. A chuva havia passado, mas uma leve brisa despenteava seus cabelos, e os relâmpagos nos céus tornaram-se mais frequentes.
- Gostaram da aventura?
- Foi inacreditável, nunca pensei vivenciar algo assim.
Penélope se levantou e ficou ao lado de Benjamim, porém, Matheus continuou ajoelhado na grama, olhando para a lápide.
- Sabe Penélope, não me interessa o que você ouviu lá, mas me interessa saber que atitude você tomará em relação ao Matheus.
- E-eu, não sei ao certo. Não sei se tenho como tirá-lo da cadeia, mas tentarei.
- Então você vai perdoá-lo.
Ela encarou Matheus, apesar do mesmo estar de costas para os dois.
- Já perdoei.
- E você Matheus, se perdoa?
- Não sei ao certo.- Ele se levantou, mas continuou olhando para o chão.- Eu vou continuar passando a noite na cadeia, não quero que vocês mudem isso, vou me perdoar quando meu castigo acabar.
- É uma decisão. Continuarei a vê-lo todos os dias então. Bom tenho de ir embora e fechar tudo aqui. Até amanhã.
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